Lego Serious Play


A noção do Design como forma ou indutor do pensamento já existe há algumas décadas, mas a expressão “design thinking” se firmou com a obra homônima de Peter Rowe em 1987. O método foi então adaptado para fins empresariais e administrativos e também expandido para outras áreas. Embora a chave desse pensamento possa estar na centralização no cliente e na empatia para se focar o que ele realmente precisa, destacamos aqui a característica do Design Thinking de enquadramento abstrato de determinado problema ou questão num conjunto de ferramentas visuais e materiais para a libertação das categorias e parâmetros estabelecidos, para a facilitação coletiva e catalisação de novas ideias de solução e para a viabilização de sua concretização. São usadas, por exemplo, representações gráficas e etiquetas coloridas em cartazes, mas conseguimos mais materialização e concretude com o “Lego Serious Play”.

Essa metodologia foi criada na empresa Lego por volta de 1996, no contexto da busca executiva por mais inovação. Concluiu-se que a solução estaria no próprio produto: os “tijolos” de plástico que permitiam a construção dos sonhos infantis poderiam facilitar também o planejamento estratégico dos adultos, e de forma coletiva e participativa. Uma participação efetiva e não apenas formal, já que a montagem dos blocos de diversos formatos e cores é intuitiva e não exige habilidades prévias significativas, proporcionando real expressão de significados individuais pelos participantes mediante metáforas mais ou menos complexas. Como comprovam diversos estudos, a utilização das mãos em espécies de concretização ou representação do tema discutido facilita a imaginação, a criatividade e o surgimento de novas perspectivas.

Há três principais fases na metodologia, a ser aplicada em oficina de um ou mais dias. A primeira é a apresentação de um desafio ou problema pelo facilitador, que distribui conjuntos individuais e iguais de blocos e determina um tempo para que os participantes construam um modelo que expresse seus pensamentos ou respostas sobre o desafio. Ainda nessa fase, destina-se também um tempo para reforço das informações passadas sobre as etapas seguintes e para familiarização e exercícios com as peças, tanto no sentido de aprender a lógica dos encaixes quanto no de perceber o que é uma representação literal e o que é uma construção metafórica. A segunda fase é a construção propriamente dita, na qual os participantes montam a sua “resposta” atribuindo à organização das peças significados específicos, por meio de metáforas, figuras de linguagem e narrativas. São fundidos assim o processo reflexivo sobre o desafio e a construção da resposta, de forma a que ambos se inspirem e se complementem mediante o “pensamento” com as mãos – nos termos do Design Thinking, privilegia-se a simultaneidade entre ideação e prototipação.

Por fim, a terceira etapa é a do compartilhamento, quando os participantes apresentam suas construções e respectivos significados, proporcionando reforço das reflexões individuais empreendidas e principalmente a reflexão conjunta, com o auxílio do facilitador. Às vezes, quando a significação ainda não surgiu por completo do processo de construção, o próprio ato de contar e buscar amarrações de sentido pode trazer à tona sentidos não imaginados e surpreendentes. Nessa fase do compartilhamento, inclusive, as construções podem ser modificadas e conectadas umas às outras, gerando-se possíveis construções coletivas por meio do diálogo e da negociação. É possível até mesmo que as fases sejam desde o início modificadas para que a construção já se inicie de forma compartilhada, assegurando-se sempre a participação de todos no processo. Os objetos construídos, portanto, são meios e não um fim ou resultado em si mesmos. Constituem um processo de reflexão sobre a questão ou problema, proporcionando maior compreensão e expressão e guardando o seu valor nos significados associados a cada construção. Terminada uma rodada com essas três fases, podem ainda ser realizadas rodadas subsequentes e complementares, trabalhando-se em “camadas” (níveis diferentes de reflexão) com os desafios e respectivas possíveis soluções.

Como premissas, nesse contexto, destacam-se a participação de todos e a crença de que há soluções no próprio sistema em questão. Afinal as pessoas costumam não saber tudo o que efetivamente sabem, e muitas vezes se limitam a um viés de raciocínio diante de um objetivo supostamente claro e definido. Há ainda a premissa da inexistência de respostas “certas” ou “erradas”, não importando o que cada construção pareça e sim os significados a ela atribuídos por seu criador. E outra característica marcante é a possibilidade de, em caso de não se ter ainda uma ideia, simplesmente começar a construir, deixando o pensamento “fluir” pelas mãos. Os outros participantes poderão então, para além das falas, “ouvir” com os olhos na contemplação das construções alheias. A metodologia, assim, contribui para o alcance de diversos objetivos: formação de equipes; trabalho em grupo para solução de um problema comum; desenvolvimento de estratégias; criação de uma visão partilhada sobre algo; compreensão dos pontos de vista dos membros de forma mais profunda; discussões em que todos sejam ouvidos; desencadeamento de pensamento criativo; planejamento e desenvolvimento organizacional; inovação e desenvolvimento de produtos; transformação de ideias em conceitos concretos; gestão de mudanças e etc.